Eternas saudades

  Vinte e três dias. Quase um mês. Sempre achei que um mês fosse muito tempo. Em verdade, é pouquíssimo. E quando se trata de alguém especial, penso que um mês é insignificante. Quando retornei a casa de minha mãe, eu estava a esperar ansiosamente por sua voz. Silêncio. Apenas a alegria de minha progenitora ao me ver, depois de tanto tempo longe. Entrei e logo acomodei minhas malas na sala, aprontando-me para ir à cozinha encontrar meus cães. Cães. Vinte e um dias depois e ainda colocando no plural. Abracei meu cachorro mais novo, ainda esperando ver o seu pai.

   Otto sempre tivera uma relação conturbada com piscina. Amor ou medo, o que era, ninguém sabia. Mas ele dormiu em suas águas.

  Mesmo com as conversas sobre como o jardim virou um lindo mini-cemitério, parecia que nada ocorrera. Era tudo igual. Preferia sonhar ao me beliscar e voltar a uma terrível e inaceitável realidade. À noite, estava somente um à porta da cozinha. Faltava o outro. Com um simples tilintar das chaves haveria de aparecer. Em um dia normal. Não apareceu. Caiu chuva novamente.

Estava com medo de ir viajar para o exterior e, quando retornasse, não o encontrasse mais. Viajei, não um ano, mas um mês. E a Dona Morte se aproveitou do ensejo.
Vinte e três dias. Hoje. Sozinha em casa. Acompanhei o Zucker, o cão mais novo, pela escada. Assim como o pai, tem tendências a escorregar e eu não poderia deixar que algo acontecesse à única prova viva de que meu pequeno companheiro existiu. Afinal, só ele pode me trazer memórias da forma mais viva com seus olhos, seus sons, seus tombos e cabeçadas. Ainda não quero acreditar. Te amo.




1 comentários:

Léa Prado disse...

Muitas, muitas saudades.